sábado, 24 de fevereiro de 2018

O refúgio

 Aqui é seguro. Como se as paredes desse pequeno quarto fossem feitas de algo além de barro vermelho. Meus desenhos a giz de cera devem dar força maior. Me deito dentro da antiga cômoda do meu tio, que agora é como uma nova casa. Onde me sinto bem, o frio do chão refresca e a luz intensa está longe dos olhos. Coloco meus bichinhos de plástico perto de mim, alguns livretos e uma plantinha em um vaso de refrigerante pequeno. As sombras a minha voltam assustavam. A luz do sol poente passava pelas folhas tremulantes da goiabeira do vizinho e depois entrava pelas frestas da porta, que as ampliavam. Fantasmas sem corpo mas expressivos se projetavam nas paredes e me ameaçavam. Mas ali as coisas seguiam num ritmo diferente, ritmo este que eu era capaz de acompanhar...

Até mais ^^

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

Vigia noturno

Vigia noturno

Sombra da noite!
Eu sei como isso parece
Mas cabe a ti acreditar
O vigia noturno tem uma lanterna
Com a qual aponta para o céu
O inimigo oculto nas asas da morte
Não é imune a força da prece
E se o medo o faz suar
Tu também não é eterna
E se o vigia 
-no ventre da escuridão-
Dá tiros ao léu
Cada instante de luz o faz sentir mais forte.

Sombra da noite, vá embora
Leve contigo as mágoas
Vá sem jamais voltar
O relógio se arrasta temendo pelas horas
O vigia grita, num som de muitas águas:
''Eu tenho uma arma e não tenho medo de usar.''

Após um tiro segue-se o silêncio.

Até mais ^^.

Réquiem imundo

Réquiem imundo

Embora meu coração morra
E minha alma apodreça
Teus abraços tinham algo de amargor
E as promessas do mundo algo de ilusão.

Embora tão longe ninguém me socorra
E em terror tudo aconteça
Ainda essa noite sonhei sem dor
E os sonhos são a casa do homem em perdição.

Embora eu não tenho força nos pulsos
Nem firmeza nos pés
Algo de fé me resta
Enquanto de mim mesmo nada persiste.

Pois eu entendo a profundidade dos insultos
E como o medo faz as pessoas torpes
Quem me dera só andar pela floresta
Quem sabe entre as árvores minha vida ainda existe.

Até mais ^^.

Palavras de sentido exato

Palavras de sentido exato

Quem me dera
Ter feito de meu leito
Um descanso sem fim
Chuva fresca de primavera
Batendo sem medo na janela
Cada gota uma lágrima para mim

Atrás da porta da sala
Talvez do quarto
Onde seja bom se esconder
Como na mudez da fala
Palavras de sentido exato
Que somente eu posso entender

Beijasse lábios estranhos
De meninos e meninas
Nada adiantaria
Nem me espanto com a soma dos anos
Minha alma não está sozinha
Se estivesse, como saberia?

Quem me dera
Ter feito de meu primeiro dia
Noite estrelada sem fim
Ter sido semente que se enterra
Onde se nasce a alegria
Voltando para onde vim.

Até mais ^^

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

Suicídio a luz de velas

Suicídio a luz de velas

Professores de metal
Dão aulas virtuais
De assuntos que ninguém entende
A adolescência artificial
Não se lembra do que a velhice faz
A morte é uma verdade que se vende.

Formaturas e casamentos
Risos imortalizados em telas coloridas
São suicídios à luz de velas
Flores que brotam do cimento
Já nascem sem suas vidas
E com as folhas amarelas.

Profetas falsos do sucesso
Pregam uma nova era
Aliens abduzem crianças do jardim
Doutores são bruxas reunidas em congresso
Usando lobotomia química para domar feras
Libertando demônios com uma fome sem fim.

Como a mortandade que assola ao meio-dia
Legiões de espíritos desesperados esperam o momento certo
Para vir ao nosso mundo
O sexo é a nova onda punk da magia
Uma lâmpada de matar insetos
Um ritmo que arranha os ossos profundos.

''A América usa drogas como defesa psíquica''
Barreiras invisíveis para afastar a solidão
Tiroteios sagrados em internatos
Sangue nas paredes de crianças ricas
Estalos de chumbo e amianto na esuridão
Ressoando uma poesia baseada em fatos.

Até mais ^^.

sábado, 10 de fevereiro de 2018

Caixa de fósforos

Caixa de fósforos
 
 As vezes me sinto tão pequeno que caberia numa caixa de fósforos. Essa pequena caixa de laterais riscadas, com algo escrito e o desenho de um índio na frente parece uma boa casa. Sem cômodos internos, ampla, retrátil e boa para afastar o frio. Do tamanho perfeito para me conter. Sua fragilidade à  chuva seria logo superada por estar estrategicamente colocada entre um vaso de cerâmica e a parede de cimento. 
 As plantas do quintal unidas formam uma grande floresta. Me deito no musgo que de certo lembra algum tipo grama e olho para cima. Um avião colorido com duas asas que se unem e separam pousa numa pista laranja escuro e pontilhada, cercada de pequenas bandeirolas amarelas finas. O aroma da terra antes suave parece ressaltado e é possível ouvir cada movimento subterrâneo criado por criaturinhas esguias. Cada gota de água faz uma cratera com seu formato, como que deixando uma impressão, e mais e mais gotas completam até que nenhuma parte do solo esteja seca. A terra absorve lentamente a água e as folhas gigantes das árvores se agitam. Sim, as folhas dançam num ritmo proposto pelo peso das gotas de água e um poder mágico faz com que elas se levantem a cada vez que são puxadas para baixo...
 A noite é fria e minha pequena casa parece uma imensidão. Eu poderia me perder ali. As vozes dos grandes gigantes já não fazem sentido e seus olhares furiosos não estão direcionados para mim. Um alívio. Vaga-lumes se misturam com as estrelas, a luz esverdeada deles é o que torna possível a distinção. Mas mesmo aqui quieto, encolhido no frio nesse lugar imenso ainda me sinto pequeno e cada vez menor. Tão pequeno que já nem mais existo e a mão de uma criança gigante que abre a caixa de fósforos na manhã seguinte descobre que ela está vazia.

Até mais ^^.

domingo, 4 de fevereiro de 2018

Anis estrelado

Anis estrelado

Faço uma xícara de chá de anis estrelado
O sabor suave compensa o amargo das horas
Que a insônia arrasta pesadamente
Como correntes de ferro pelo chão.

Me falta maturidade
Mas a noite é insensível a mudanças
E quer embalar meu sono sempre do mesmo modo
Mas sempre que me deito é preciso esquecer
 Abrir mão de um pensamento, um machucado
Como cada gota de chuva pinga no balde lá fora
Mas elas não são eternas, infelizmente
Nem eterno é o meu coração.

E por fim eu mudo, na verdade
Abrir mão é o começo das esperanças
Como nas estrelas que rodopiam de um modo engraçado
Me convencendo a adormecer.

Até mais ^^.